quinta-feira, 11 de junho de 2015

"Cátedras universitárias, a nova moda no setor"

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Cátedras universitárias, a nova moda no setor

André M. Mileski

Há alguns anos, era praticamente regra para empresas estrangeiras dos setores aeroespacial e de defesa com negócios ou interesses no País participar do programa Ciência sem Fronteiras, do Governo Federal.

As empresas, objetivando demonstrar comprometimento com o Brasil e, assim, posicionarem-se mais favoravelmente para futuros negócios, financiavam e ofereciam bolsas de estudos e estágios a estudantes de graduação e pós-graduação. A Boeing, a Airbus (então EADS), a Saab e a Dassault Aviation foram algumas que adotarem este expediente.

A estratégia evoluiu nos últimos tempos e passou a incluir esforços junto a universidades brasileiras, como o estabelecimento de cátedras com professores estrangeiros, financiamento de bolsas de estudos e de projetos de Pesquisa & Desenvolvimento (P&D). Desde o início do ano, ao menos quatro companhias anunciaram acordos de cooperação com universidades locais.

Em fevereiro, a fabricante de helicópteros norte-americana Sikorsky,  fornecedora das três forças armadas, firmou com o tradicional Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), de São José dos Campos (SP), um instrumento visando oferecer aos seus estudantes disciplinas relacionadas a aeronaves de asas rotativas. O acordo abrange a oferta de bolsas de estudos e a criação de um laboratório de voo sem movimento e outros equipamentos, além do envio de instrutores dos EUA para apoio às aulas e pesquisas.

Com um enfoque mais espacial, a franco-italiana Thales Alenia Space e a brasileira Omnisys inauguraram em março o Centro Tecnológico Espacial, que tem como um de seus propósitos o apoio a universidades para o desenvolvimento de um Mestrado em Engenharia em Sistemas Espaciais. Na época, as empresas divulgaram o estabelecimento de uma cadeira universitária voltada a satélites, além de ter coordenado e financiado várias teses de doutorado e estudos conjuntos.

Em junho, a Thales, que tem ampliado suas atividades no Brasil, deu mais um passo em sua estratégia ao patrocinar um programa de cooperação acadêmica entre França e Brasil envolvendo o Instituto Mauá de Tecnologia, a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a instituição de ensino superior francesa Ecole Nationale Supérieure des Mines de Saint-Etienne, e a Omnisys, subsidiária da Thales. Denominado SEAC – Sistemas Eletrônicos Embarcados para Aplicações Críticas, o programa terá duração de um ano e consiste no intercâmbio de estudantes brasileiros e franceses, além da oferta de estágios na Omnisys ou em outras unidades da Thales na Europa.

Outra empresa que ampliou seus esforços “universitários “foi a sueca Saab, selecionada para fornecer caças à Força Aérea Brasileira. Um convênio de transferência tecnológica foi celebrado por Marcus Wallenberg, presidente do Conselho de Administração do grupo, em reunião com a presidenta Dilma Rousseff no final de março. As ações do programa incluem o estabelecimento, a partir de 2015, de um grupo de professores suecos no ITA, que oferecerão um curso de pós-doutorado em Engenharia Aeronáutica financiado pela empresa e pelo governo sueco.
  
No final de abril, foi a vez da europeia Airbus anunciar a criação da “Cátedra Franco-Brasileira” na Faculdade de Engenharia Mecânica da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). O programa visa promover P&D industrial na área de materiais compósitos para a fabricação de aeronaves e helicópteros.

Apesar destas ações terem um grande componente de marketing, seus benefícios para a formação de mão de obra especializada são inegáveis. É algo ainda mais verdadeiro para o Programa Espacial Brasileiro, que tem hoje como uma de suas principais ameaças a não reposição num ritmo minimamente adequado dos profissionais de instituições como o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e o Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE).
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